NEOGAMA | BBH

Quando o mundo faz zig, faça zag

  • Av. Mofarrej, 1174, Vila Leopoldina
    São Paulo, SP, CEP: 05311-000
    +55 11 2184 1200
  • ver mapa

A Sustentabilidade se sustenta

by Alexandre Gama

2008-03-10

"Conhecimento causa mudança irreversível. É muito difícil continuar o mesmo depois que se sabe. Há uns 7 anos comecei a sentir que vivia de maneira errada. Acordava toda manhã sentindo nos ossos que havia alguma coisa que não estava certa e que ficava menos certa a cada nova manhã. Podia ser apenas uma depressão, mas não era. Malthus e a progressão geométrica explicavam em parte essa sensação, uma vez que a cada ida minha para o trabalho os problemas de viver em cidade grande, como o tráfego, a violência e a poluição, se mostravam cada dia maiores. Mas, como a explicação não me parecia suficiente, fui buscar conhecimento. Fui tentar entender por que sentia que eu e todos os demais à minha volta estávamos vivendo de maneira errada, não havendo nada errado com minha vida pessoal ou profissional, muito pelo contrário. Desde então, muitas conversas e livros depois, começou a emergir desse desconforto uma pessoa de consciência modificada. E é absolutamente impossível para mim, hoje, acordar toda manhã fazendo de conta que não sei que estamos correndo em velocidade acelerada para um muro. Entendi, com a ajuda de vários pensadores em geral e alguns em particular, que somos uma rã cozinhando em fogo brando. E o grande problema é que se a temperatura do cozimento sobe aos poucos (bem devagar, como vem ocorrendo ao logo de centenas de centenas de anos), a rã é incapaz de saltar da panela antes de ser tarde demais. Não sou rã, não gosto da passividade e não acredito que eu tenha que esperar por Al Gore ou outro qualquer para me mexer dentro dessa panela. Decidi começar a fazer algo. Mas o quê? O que fazer que possa ajudar a mudar algo tão profundo, tão enraizado, tão intricado como “o nosso modo de vida”? Algo que vem sendo adotado com uma percepção de sucesso há milênios? Além disso: o que uma pessoa apenas pode fazer?

Pode fazer pelo menos o que sabe. E, se sabe ter idéias e conhece o modo como uma idéia se propaga, pode influenciar outras pessoas. O fato é que sendo um profissional de comunicação e estando a testemunhar em vida o fim da era industrial e o começo da era da informação, tenho para mim que essas duas eras geram duas sociedades diferentes. A primeira, que floresceu no século passado, fruto da era industrial, e que se chama sociedade de consumo. A segunda, que ganhou corpo há pouco mais de 15 anos, com a era da informação, e que gera uma sociedade da comunicação. Na primeira, talvez o maior símbolo seja a linha de montagem inventada por Ford, que permitiu produzir um bem industrial de enorme influência social e econômica em série. Na segunda, a internet, sem dúvida, é o maior símbolo, porque permitiu produzir informação também em série, mas de forma viral, tornando possível pela primeira vez na nossa história que todos interajam com todos. E é nessa possibilidade de interação simultânea em série que acredito. É com a ajuda dela que um problema como o aquecimento global, produzido pelo modo de vida de cada um de nós individualmente e por todos nós em conjunto, pode começar a ser encarado. Estou hoje, portanto, tentando praticar o que chamo de “mudança de comportamento em série”. Sendo eu mesmo por tantos anos um profissional a serviço da sociedade de consumo, vislumbro hoje a possibilidade de ajudar a mudar o sentido da palavra “consumo” e seus efeitos, de tentar mudar a máquina de dentro da máquina. Pode parecer utópico, mas garanto que não sou dado a utopias. Acredito que o sonho é a mira do pragmatismo. E sei, por exemplo, que para algo assim começar a acontecer, de fato, são fundamentais três coisas: idéias, dinheiro e propagação. Idéias e propagação são, como já disse, a minha especialidade. Com relação ao dinheiro aprendi que ele não é difícil de aparecer quando você consegue arranjar um modo de fazer com que ele renda mais dinheiro.

Na minha opinião, portanto, a sustentabilidade só se sustenta se levar em consideração a própria natureza humana que criou os problemas. As idéias de conforto, progresso e lucro são causas do aquecimento global, mas não vamos viabilizar a sustentabilidade se tentarmos ingenuamente eliminar essas questões da natureza humana. Temos que evoluir e melhorar, é claro. Mas é mais realista usar criativamente nossas imperfeições a favor do objetivo do que tentarmos engendrar imediatamente o novo ser humano. Por uma questão de realismo e de urgência, temos que fazer as mudanças com o que somos. Trabalhando em paralelo nas futuras gerações para que elas sejam melhores do que nós.

Foi pensando assim que me veio a idéia do Banco do Planeta para o Bradesco. Um banco que muito antes de alguém cunhar a expressão “responsabilidade social” já tinha o maior programa privado de educação do país, iniciado há 50 anos. O Banco do Planeta é o exemplo de uma empresa colocando a sustentabilidade como parte central de sua forma de fazer negócio. Além de todas as ações que ela já pratica em seu dia-a-dia, como uso de papel reciclado, neutralização de carbono e tantas outras obrigatórias, o Banco do Planeta se propõe a ampliar o papel de um banco, indo além de si mesmo. Sem blá-blá-blá, a primeira ação nesse sentido foi imediata e consistiu na criação da Fundação Amazonas Sustentável em parceria com o governo do Amazonas no final de 2007. O principal objetivo dessa fundação é implementar ações que façam a floresta tropical valer mais de pé do que derrubada. Uma idéia. Que gerou dinheiro para ser implementada. E que começa a ser propagada. Além disso, o banco lançará mais e mais produtos financeiros que trarão a sustentabilidade como centro de sua rentabilidade. Essa é uma tendência que está cada vez maior. E que vai separar os que realmente querem seguir nessa direção daqueles que irão encarar essa realidade como apenas mais uma onda a ser surfada. E que nesse caso serão impiedosamente tragados por ela. Em vários lugares do mundo já há a tendência a se encarar a sustentabilidade como um excelente negócio. Há anos comento que o empresário que conseguir produzir energia solar de forma massiva e viável merece ganhar rios de dinheiro. Que o industrial ou a corporação que vencer as resistências e lobbies internacionais e produzir carros elétricos acessíveis e viáveis merece rios de dinheiro. Que qualquer um que consiga reinventar uma parte que seja do “nosso modo de vida” merece rios de dinheiro. Se o desejo de lucro é uma mola quase impossível de remover da equação humana, ainda podemos realinhar a mola para que ela impulsione as coisas numa direção nova. Conhecimento causa mudança irreversível. E a mudança que o conhecimento causou no meu caso é a de enxergar que a sociedade de consumo não pode continuar consumindo o planeta. Por isso, se o problema é o aquecimento global, a solução é também uma oportunidade: recriar essa sociedade de consumo. No processo estaremos nos obrigando a criar simultaneamente uma nova relação entre homem e ambiente.

Artigo publicado em livro sobre Fórum Mundial de Comunicação Social, realizado em Porto Alegre, em março de 2008.