by Alexandre Gama
2010-06-14Para tudo. A grande festa do futebol mundial ainda não está pronta para o pontapé inicial. Nada a ver com as obras de infraestrutura incompletas na África do Sul. Também não é o fato de Ganso e Neymar não estarem lá com a seleção do Dunga – seleção que, como ele mesmo disse, é dele e não do Brasil. Não. Tudo isso já está assimilado. Matei essas más notícias no peito e saí jogando. O problema é que a apenas alguns dias da abertura da Copa, quando o apito do árbitro em Johannesburg, às 16 horas local, iniciar oficialmente o primeiro jogo, eu não consigo achar Sokratis Papastathopoulos. Sokratis é grego, tem 22 anos, joga no Genoa da Itália e é beque central na seleção da Grécia com o número 19 na camisa. Mas é o número 168 que ele ostenta no álbum de figurinhas da FIFA que está me tirando do sério. É isso mesmo. Sokratis Papastathopoulos é a última figurinha – aquela derradeira – que preciso para preencher meu álbum. Só falta ele, um grego, com nome de jogador corintiano da década de 80, que agora se esconde em alguma banca de jornal pelo Brasil, teimando em não comparecer à página 20 do meu álbum. As piadas infames dos amigos só fazem aumentar a dor dessa ausência: “você cortou ele do time sem querer na hora que rasgou o saquinho”, disse um. “Ele foi pego no exame antidoping por cheirar cola de figurinha”, disse outro. Ouço resignado, com sorriso amarelo, e sigo encarando aquele vazio tático e fotográfico nas páginas da seleção da Grécia. Onde está você, Sokratis? Estou com o número 168 na cabeça o dia inteiro, vivendo aquela aflição de parente de pessoa desaparecida. Já tentei trocar as muitas dezenas de figurinhas repetidas que tenho, mas ninguém tem a 168 repetida para trocar comigo. Já cheguei a dizer que dou todas as minhas em troca de uma do Sokratis, o que se configuraria certamente na maior transação da história do futebol mundial envolvendo uma figurinha da FIFA. Mas até agora nada. Confesso que começo a ter um certo bode da Grécia – berço da cultura ocidental. Afinal, além de derrubar o euro e detonar uma crise financeira na Europa, agora fica aí me regulando o Sokratis. E se a reação parece irracional e exagerada, lembro que até filósofo grego sabe que centroavante usa a cabeça, mas a paixão não. No fundo, sei que mais cedo ou mais tarde o Sokratis Papastathopoulos vai aparecer. Só que o problema é o “mais tarde”, já que prometi para as minhas filhas que o álbum estaria completinho antes do início da Copa. Elas têm ajudado bastante, principalmente a mais nova de 6 anos, Stella, que tem usado todo seu network escolar para tentar achar a figurinha do grego desaparecido. Obviamente optei por dar a ela apenas o número da figurinha, em vez do nome, já que Papastathopoulos para alguém recém-alfabetizado é literalmente grego. Além da dificuldade, ainda me provoca a ironia: tenho vários Ronaldinhos Gaúcho, vários Beckhams, vários Ballacks, jogadores que nem deviam estar no álbum, porque não vão jogar na Copa. E o Sokratis Papastathopoulos, que vai para a Copa, não está no meu álbum. Bizarro. Mas confesso que tem pelo menos uma coisa que me consola e até me diverte nessa situação: poder dizer que troco 7 Messis por 1 Sokratis Papastathopoulos. Messi é figurinha fácil. Raro mesmo é o Sokratis.