NEOGAMA | BBH

When the world zigs, zag

  • Av. Mofarrej, 1174, Vila Leopoldina
    São Paulo, SP, CEP: 05311-000
    +55 11 2184 1200
  • view map

Existe país além da cabeceira da pista?

by Alexandre Gama

2007-07-23

É importante perceber que o acidente de Congonhas é um sintoma. E o país fica discutindo, míope, o sintoma, em vez de combater a doença. Essa doença chamada “passividade conformista”.

O aeroporto de maior tráfego aéreo do país. Localizado no coração urbano da maior cidade do país. Sem área de escape, com pista curta, cercado de residências e prédios, colado em algumas das avenidas de maior movimento do país. Você acha que é de estranhar que nele pudesse ocorrer o maior acidente aéreo do país? É claro que não. Quando todos os detalhes de uma equação estão errados, o resultado é um erro matematicamente proporcional à soma das partes. Pode ser cômodo ter um aeroporto dentro da cidade. Mas quando a comodidade ameaça se tornar mais importante que a vida, os acomodados que se mudem.

Aeroporto no lugar errado.

Todos sabem que Congonhas não pode mais estar onde está. Com o crescimento da cidade e das operações aéreas, a convivência entre essas duas demandas se tornou uma mistura mais instável que nitroglicerina. Nas mesmas condições, em um aeroporto longe de prédios, de área residencial e com área de escape suficiente, o Airbus provavelmente não se tornaria a estatística recorde que a imprensa agora divulga. A queda do Fokker, anos atrás, caindo sobre casas e matando mais de 90 pessoas, já havia sido evidência de absurdo suficiente para qualquer pessoa de bom senso.

É como disse na TV um especialista em avaliação de risco na noite do acidente do Airbus: a existência de um aeroporto naquela localização é, em termos de estatística de risco, inaceitável.

Como são inaceitáveis várias coisas com as quais temos aceitado conviver, como a corrupção, o desvio de verbas públicas, a violência urbana e o crescimento do crime organizado.

É importante perceber que o acidente de Congonhas é um sintoma. E o que se vê, sempre que algo assim acontece, é o país discutindo, miope, o sintoma, em vez de combater a doença. Essa doença chamada “passividade conformista”. Doença sua, minha, nossa. Um mal que faz com que, depois de ficarmos chocados com tragédias como a de Congonhas ou a do menino arrastado vivo por carro dirigido por bandidos no Rio de Janeiro (já esqueceu?), voltemos sempre, conformadamente, a fazer o que fazemos, da maneira como sempre fazemos, esperando que alguém pago para fazer algo faça a coisa que deve ser feita.

Um país que precisa decolar.

O que já deviamos ter aprendido muitas tragédias atrás é que não existe “alguém” Não há ninguém além de nós mesmos. Um governo é só um espelho do povo que o elege. As instituições são o reflexo da qualidade dos cidadãos que as utilizam. Como um músculo é forte quando bem exigido, ou flácido, se o braço é sedentário. Governos são governados pela nossa vontade e regulados pela nossa atuação. Portanto, na ausência da nossa vontade e atuação, não temos direito de estranhar a ausência de governo.

Só existe uma maneira de um país funcionar direito: cada um saber qual é seu papel de cidadão e não se furtar a cumpri-lo. Somos nós que temos que fazer alguma coisa, porque não existe eles.

É importante a partir de agora, me parece, começar a participar mais das grandes questões, através de filiação a ONGs ou a grupos e instituições que podem ajudar cada um de nós a ter voz e a atuar mais no destino deste país. Qualquer que seja essa participação, exerça-a. Porque não dá mais para continuarmos sendo um povo cordeiro, abatido em rebanhos dentro de aviões que caem em aeroportos surreais, ou dentro de carros assaltados em cruzamentos por ladrões que matam por relógios. Não dá mais para continuar assistindo passivamente a manobras no Congresso, corrupção endêmica, desvio de verba e falta de ética. Tudo ao mesmo tempo, agora. Temos a obrigação moral de discutir, opinar, influenciar e, principalmente, atuar. Para mudar essa escrita.

A ironia é que todos querem que este país decole. Mas sem competência e sem a cura dessa passividade só seremos capazes - como aquele Airbus - de um vôo de galinha, que termina logo depois da cabeceira da pista.